Certas Bactérias Intestinais Protegem Contra Alergias Alimentares

reação alérgica

Resumo da matéria -

  • A atividade do seu microbioma intestinal influencia suas respostas imunológicas, o funcionamento do sistema nervoso e atua no desenvolvimento de qualquer número de doenças, incluindo alergias alimentares
  • Pesquisas recentes demonstraram que uma bactéria intestinal comum chamada Clostridia ajuda a prevenir a sensibilização a alérgenos alimentares
  • Seu microbioma é um dos ecossistemas mais complexos do planeta e, para cada bactéria que você possui, você também tem 10 bacteriófagos ou vírus — cerca de um quatrilhão deles — no seu intestino
  • Um vírus intestinal infecta e mata as bactérias benéficas chamadas Bacteroides. Esse vírus pode desempenhar um papel na obesidade, alterando a proporção de bactérias, permitindo que as bactérias que promovem a obesidade proliferem
  • A melhor maneira de otimizar sua flora intestinal é através da sua alimentação. Uma alimentação saudável não deve possuir açúcares processados e ser rica em alimentos integrais, não processados e sem açúcar, junto de alimentos tradicionalmente fermentados ou cultivados
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Por Dr. Mercola

O microbioma do seu corpo — colônias de vários micróbios que residem no seu intestino e em outros lugares e em outras partes do corpo — é tão único quanto sua impressão digital.

Ele varia de pessoa para pessoa com base em fatores como dieta, estilo de vida, histórico de saúde, localização geográfica e até ancestralidade. Seu microbioma é, de fato, um dos ecossistemas mais complexos do planeta.

Em termos de proporções, as suas bactérias superam as células do seu corpo em 10 para 1, e os vírus superam as bactérias em 10 para 1! Então, não só o seu corpo é o lar de 100 trilhões de bactérias, você também abriga cerca de um quatrilhão de vírus (bacteriófagos).

Todos esses organismos desempenham uma infinidade de funções nos principais sistemas biológicos, e precisam ser adequadamente equilibrados e cuidados para manter a boa saúde.

Por exemplo, suas bactérias intestinais influenciam suas respostas imunológicas, o funcionamento do sistema nervoso e desempenham um papel no desenvolvimento de diversas doenças, incluindo alergias alimentares, conforme demonstrado por pesquisas recentes.

As Alergias estão Aumentando em todo o Mundo Ocidental

As alergias alimentares afetam cerca de 15 milhões de pessoas, incluindo uma em cada 13 crianças. Estatísticas perturbadoras também apontam que alergias alimentares potencialmente mortais estão aumentando. Por exemplo, entre 1997 e 2011, as alergias alimentares em crianças aumentaram 50%!

As crianças que moram em cidades correm um risco maior. Em um estudo, 10% das crianças criadas em grandes cidades desenvolveram uma alergia alimentar antes dos cinco anos de idade. Vinte e nove por cento desenvolveram sensibilidade alimentar. A alergia alimentar mais comum foi ao amendoim (6%), seguida por ovos (4,3%) e leite pasteurizado (2,7%).

Aqueles que moram em cidades também possuem um risco elevado de desenvolver asma e outras alergias ambientais. Da mesma forma, na Grã-Bretanha, uma em cada três pessoas é alérgica a alguma coisa, seja pólen, ácaros ou alimentos.

Pesquisas anteriores estabeleceram paralelos entre o aumento de alergias e o aumento do uso de antibióticos e antimicrobianos. De acordo com pesquisadores britânicos, a exposição a antibióticos no início da vida pode aumentar o risco de desenvolvimento de eczema em 40%.

Outros cientistas demonstraram claramente como os alimentos geneticamente modificados e o uso do herbicida agrícola glifosato destroem as bactérias do intestino e promovem alergias. Um estudo recente acrescenta mais credibilidade à hipótese do microbioma danificado.

Certas Bactérias Intestinais Protegem Contra Alergias Alimentares

O estudo, que usou ratos, descobriu que uma bactéria intestinal comum chamada Clostridia ajuda a prevenir a sensibilização a alérgenos alimentares. De fato, as respostas imunes aos alérgenos alimentares foram revertidas quando as bactérias Clostridia foram colocadas de volta nos ratos.

Outro tipo comum de bactérias intestinais, chamada Bacteroides, não teve esse efeito, sugerindo que a Clostridia pode ter um papel único nesse sentido.

Usando a análise genética, os pesquisadores determinaram que Clostridia instrui as células imunes a produzir uma molécula de sinalização chamada interleucina-22 (IL-22), que é conhecida por reduzir a permeabilidade do revestimento nos seus intestinos.

Em outras palavras, ela ajuda a prevenir a síndrome do intestino permeável — uma doença que permite que os alérgenos entrem na corrente sanguínea, produzindo uma resposta imune. Os pesquisadores sugerem que esta descoberta pode eventualmente levar a terapias probióticas para tratar alergias alimentares. Conforme relatado pelo HealthCanal.com:

“Ao induzir respostas imunes que impedem a entrada de alérgenos alimentares na corrente sanguínea, a Clostridia minimiza a exposição a alérgenos e previne a sensibilização um passo fundamental no desenvolvimento de alergias alimentares…

Embora as causas da alergia alimentar… sejam desconhecidas, os estudos sugerem que práticas higiênicas ou dietéticas modernas podem desempenhar um papel ao danificar a composição bacteriana natural do corpo…

‘Estímulos ambientais como o uso excessivo de antibióticos, dietas com alto teor de gordura, nascimento por cesariana, remoção de patógenos comuns e até mesmo fórmulas alimentares afetaram a microbiota com a qual coevoluímos’, disse a Dra. Cathryn Nagler, professora da Bunning Food Allergy da Universidade de Chicago.

‘Nossos resultados sugerem que isso pode contribuir para a crescente suscetibilidade a alergias alimentares.’”

Danos Precoces Causados à Flora Intestinal Também Podem Promover Problemas Metabólicos

Além do aumento do risco de alergias, os danos precoces feitos ao seu microbioma também pode ter efeitos em longo prazo no seu metabolismo. Um estudo recente sugere que expor crianças a antibióticos pode, de fato, predispor à obesidade.

O estudo, publicado na revista Cell, aponta para a existência de uma janela de tempo em que mudanças no microbioma podem ter um impacto sério e de longo prazo no metabolismo do corpo.

Esta janela foi no primeiro mês de vida em ratos. Traduzindo isso para uma escala de tempo humano — desde que o efeito aplique-se totalmente aos humanos — isso iria correlacionar-se com o período de tempo que equivale aos primeiros seis meses; potencialmente até os primeiros três anos. Os ratos que receberam antibióticos nas primeiras quatro semanas de vida cresceram 25% mais e tiveram 60% mais gordura corporal do que os ratos de controle.

Os pesquisadores identificaram quatro espécies específicas de bactérias intestinais que pareciam ser de particular importância no que diz respeito ao metabolismo: Lactobacillus, Allobaculum, Rikenelleceae e Candidatus arthromitus (o último não é encontrado em humanos).

A erradicação dessas quatro espécies de bactérias nos intestinos dos ratos desencadeou mudanças metabólicas que levaram à obesidade. Conforme relatado pelo The Guardian:

“Essas descobertas… baseiam-se em estudos anteriores que descobriram que as crianças que tomavam antibióticos antes dos seis meses de idade eram mais propensas a ter excesso de peso quando tinham sete anos de idade.

‘Isso faz parte de um crescente corpo de evidências de que os antibióticos possuem um custo biológico’, disse Martin Blaser, microbiologista que liderou o estudo na Universidade de Nova Iorque. ‘Nosso estudo demonstrou que pode haver consequências permanentes’.

‘Se uma criança está muito doente, não há dúvida de que ela deve receber antibióticos, mas se for marginal talvez o médico deva dizer ‘vamos esperar um ou dois dias’ antes de dar outra olhada.

Os médicos dão antibióticos pensando que não farão nenhum mal, mas esse estudo fornece evidências de que eles podem fazer’, acrescentou Blaser… ‘Descobrimos que quatro semanas de antibióticos foram suficientes para danificar o microbioma, e mesmo que ele tenha retornado ao normal após algumas semanas, os ratos ainda ficaram gordos.’”

Alterar o seu Microbioma é Fácil com as Mudanças Dietéticas Apropriadas

A melhor maneira de otimizar sua flora intestinal é através da sua alimentação. Primeiro, você deve certificar-se de evitar:

  • Grãos e açúcares, pois eles promovem o crescimento de fermentos patogênicos e outros fungos. Grãos contendo glúten são particularmente prejudiciais para a sua microflora e saúde em geral.
  • Alimentos geneticamente modificados, uma vez que eles contêm algumas das maiores quantidades de glifosato. Descobriu-se que este herbicida agrícola dizima micróbios e tende a atacar preferencialmente as bactérias benéficas.
  • Alimentos processados e pasteurizados, que prejudicam suas bactérias boas.
  • Carnes e outros produtos animais criados convencionalmente; os animais criados em sistemas CAFO (Operações de Alimentação de Animais em Confinamento) são rotineiramente alimentados com baixas doses de antibióticos e rações transgênicas.
  • Água da torneira clorada, pois o cloro mata não apenas bactérias patogênicas na água, mas também as bactérias benéficas no intestino.

Uma dieta saudável deve ser rica em alimentos integrais, não processados e sem açúcar, junto com alimentos tradicionalmente fermentados ou cultivados. Alimentos fermentados também são um componente chave do protocolo GAPS, uma dieta projetada para curar e selar seu intestino.

Seu objetivo deve ser consumir de um quarto a meia xícara de vegetais fermentados em cada refeição, mas pode ser que você tenha de chegar nesta medida gradualmente. Considere começar com apenas uma ou duas colheres de chá algumas vezes por dia e aumentar conforme sua tolerância permitir. Se isso for demais (talvez seu corpo esteja seriamente comprometido), você pode até mesmo começar a beber uma colher de chá da salmoura dos legumes fermentados, que é rica nos mesmos micróbios benéficos.

Você também pode querer considerar tomar um suplemento probiótico de alta potência, mas perceba que não há um substituto para um alimento real. Um artigo anterior do Journal of Physiological Anthropology afirma que a fermentação adequadamente controlada amplifica o conteúdo específico de nutrientes e fitoquímicos dos alimentos, melhorando assim a saúde.

Outros Fatores Ambientais que Afetam o seu Microbioma

Além de uma dieta inadequada, o seu microbioma também é afetado por uma variedade de fatores ambientais e escolhas de estilo de vida, para melhor ou para pior. Passar algum tempo no hospital aumenta o risco de adquirir alguma coisa enquanto estiver lá. Uma estadia de dez dias significa 10% de chance de pegar alguma coisa.

Alguns dos fatores que representam os perigos mais graves para o seu microbioma incluem:

Antibióticos (use somente se for absolutamente necessário, e certifique-se de repovoar seu intestino com alimentos fermentados e/ou um bom suplemento probiótico)

AINEs (Anti-inflamatórios não esteróides) danificam as membranas celulares e interrompem a produção de energia pelas mitocôndrias)

Inibidores da bomba de prótons (remédios que bloqueiam a produção de ácido no estômago, normalmente receitados para a DRGE, como Omeprazol, Prevacid e Nexium)

Sabão antibacteriano

Estresse

Poluição

Como observado em uma reportagem recente da BBC News, a falta de exposição ao ar livre pode fazer com que seu microbioma fique “deficiente”. Depois de monitorar a localização de duas famílias por 24 horas, os pesquisadores descobriram que os membros da família passavam em média 91% do seu tempo dentro de casa.

Essa tendência pode, de fato, ser um dos fatores que impulsionam o aumento das estatísticas de alergia no mundo moderno — em suma; nós não estamos expondo-nos as bactérias benéficas que os seres humanos costumavam receber da própria terra.

De acordo com a BBC:

“Indiscutivelmente, a coisa mais fácil que todos nós podemos fazer para reduzir nossas chances de tornar-nos alérgicos é sair de casa. Seja para caminhar com o cachorro ou andar até a escola, a evidência sugere que estar do lado de fora de casa e respirar profundamente é bom para você.

Um estudo descobriu que, se você tiver mais plantas e flores em torno de sua casa, não só é mais provável que você tenha uma variedade diversificada de bactérias na sua pele, mas também é menos provável que você torne-se alérgico.

O professor Graham Rook, da University College London, chama essas bactérias de ‘velhos amigos’ e não tem dúvidas sobre sua importância para a saúde. Ele diz: ‘De certa forma, a percepção de que os humanos são de fato ecossistemas e que dependemos muito desses microrganismos é provavelmente o avanço mais importante da medicina nos últimos cem anos.’”