Dieta Sem Glúten é Benéfica para Muitas Pessoas - Não Apenas para as Que Têm Doença Celíaca

Micróbios Intestinais

Resumo da matéria -

  • Estudos realizados agora confirmam que muitas pessoas realmente experimentam reações adversas ao glúten, mesmo que não tenham doença celíaca. Aquelas que reagem ao glúten, apesar de não terem doença celíaca, tendem a ter intestino poroso
  • Grãos contendo glúten foram associados a mais de 200 efeitos adversos à saúde, com 20 modos adversos de toxicidade, incluindo neurotoxicidade
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Por Dr. Mercola

A doença celíaca é um distúrbio autoimune. Pessoas com doença celíaca sofrem reações gastrintestinais (GI) graves e má absorção de nutrientes em resposta ao glúten encontrado no trigo e outros grãos, e uma alimentação 100% livre de glúten é essencial para essas pessoas.

A doença celíaca é tipicamente diagnosticada pela medição da presença de autoanticorpos, como a transglutaminase 2 (TG2), que é considerada o marcador mais sensível para doença celíaca.

Muitas pessoas têm alergia ao trigo ou algum nível de intolerância ou sensibilidade ao glúten, e se dão melhor com uma alimentação sem glúten, mesmo que não tenham doença celíaca. Se você é alérgico (a) ao trigo, consumi-lo resultará em reação imunológica que pode ser diagnosticada pela medição de anticorpos chamados IgE e/ou outros marcadores do sistema imunológico.

Intolerâncias alimentares, por outro lado, estão tipicamente relacionadas à falta de uma enzima específica para decompor o alimento em questão. Intolerâncias alimentares tendem a gerar menos sintomas mais lentos no início e, portanto, podem ser mais difíceis de diagnosticar.

Diarreia ou constipação, inchaço, dor de cabeça, ansiedade e fadiga são sintomas comuns de intolerância alimentar, mas podem não aparecer até horas ou mesmo dias depois. A sensibilidade ao glúten é real, dizem pesquisadores, e pode afetar até 6% da população.

A Sensibilidade ao Glúten Pode Afetar a Maioria das Pessoas

Glúten é uma proteína composta de moléculas de glutenina e gliadina, que na presença de água formam uma ligação elástica. O glúten pode ser encontrado em outros grãos além do trigo, incluindo centeio, cevada, aveia e espelta.

O glúten também pode esconder-se em alimentos processados sob uma variedade de nomes, incluindo mas não limitando-se a maltes, amidos, proteína vegetal hidrolisada (PVH), proteína vegetal texturizada (PVT) e aromatizantes naturais.

Se você fizer uma pesquisa na Biblioteca Nacional de Medicina dos EUA, verá que grãos contendo glúten foram associados a dezenas de efeitos adversos à saúde e modos adversos de toxicidade. No topo desta lista está a neurotoxicidade, e em seu livro, "Grain Brain" (Cérebro de Grão), Perlmutter analisou especificamente o impacto neurológico do glúten (trigo) e da caseína (laticínios) sobre nosso cérebro e sobre doenças autoimunes.

Ele também acredita que a sensibilidade ao glúten pode estar envolvida na maioria das doenças crônicas, por conta do modo como o glúten afeta o sistema imunológico.

De acordo com o Dr. Alessio Fasano, diretor da Celiac Research e chefe de gastroenterologia pediátrica e nutrição do Hospital Geral de Massachusetts, a sensibilidade ao glúten pode ser muito mais prevalente do que suspeitava-se. Ele estima que praticamente todos nós somos afetados por ela em algum grau, porque todos nós criamos algo chamado zonulin no intestino em resposta ao glúten.

Esta proteína, encontrada no trigo, cevada e centeio, torna seu intestino mais permeável, o que permite que proteínas entrem na corrente sanguínea. Isso sensibiliza o sistema imunológico e promove inflamação e autoimunidade. No comunicado de imprensa anunciando a publicação de seu novo livro, "Gluten Freedom" (Independência do Glúten), Fasano informou:

"Mostramos agora que a sensibilidade ao glúten realmente existe. Passou de doença nebulosa que muitos médicos descartaram a doença considerada distintamente identificável, que é bem diferente da doença celíaca. A sensibilidade ao glúten afeta seis a sete vezes mais pessoas do que a doença celíaca."

Como o Trigo Afeta sua Saúde

A hibridização aumentou a proporção de proteína do glúten no trigo — Até o século 19, o trigo também era tipicamente misturado com outros grãos, feijões e nozes; a farinha de trigo pura tem sido moída para virar farinha branca refinada somente durante os últimos 200 anos. A dieta rica em grãos refinados e rica em glúten que a maioria de vocês consome desde a infância simplesmente não fazia parte da dieta das gerações anteriores.

A contaminação por glifosato também pode desempenhar função distinta no desenvolvimento da doença celíaca, de alergias ao trigo e de sensibilidade ao trigo. O uso do glifosato, ingrediente ativo do herbicida de amplo espectro Roundup, aumentou dramaticamente nos últimos 15 anos.

De acordo com a Dra. Stephanie Seneff, professora de pesquisa do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), o uso de glifosato no milho, na soja e no trigo convencional geneticamente modificado (GM), está fortemente correlacionado com o aumento nos casos de doença celíaca.

Suas conclusões iniciais foram publicadas na revista Entropy em 2013, que foi seguida por um segundo artigo associando especificamente o glifosato à doença celíaca. O glifosato destrói as vilosidades do intestino, o que reduz sua capacidade em absorver vitaminas e minerais. Além disso, o trigo contém gliadina, difícil de decompor-se.

Normalmente, ocorre uma reação que constrói ligações entre diferentes proteínas do trigo, mas o glifosato interfere nesse processo, resultando um trigo altamente indigesto. O resultado final é a disbiose do intestino (doença caracterizada pelo desequilíbrio microbiano no intestino que pode desencadear inflamação intestinal e intestino poroso) e supercrescimento de patógenos.

Além disso, seu intestino produz serotonina em resposta ao triptofano. O trigo é uma boa fonte de triptofano, mas quando o trigo é contaminado com glifosato, suas células intestinais entram em ação e começam a produzir muita serotonina, que por sua vez produz muitos dos sintomas comuns da doença celíaca, como diarreia.

As proteínas do trigo podem causar intestino poroso e problemas de saúde associados — Proteínas glutinas chamadas prolaminas aumentam a permeabilidade do trato intestinal, sensibilizando assim o sistema imunológico.

À medida que espaços se desenvolvem entre as células que compõem o revestimento de seus intestinos, alimentos não digeridos, bactérias e resíduos metabólicos podem vazar para a corrente sanguínea, daí o termo "intestino poroso". Essas substâncias estranhas desafiam seu sistema imunológico e aumentam inflamações no organismo.

O glúten também pode contribuir para problemas de saúde que você talvez não associe imediatamente à disfunção intestinal, como acne, dermatite atópica, estomatite aftosa recorrente (SRA – um tipo de afta) e vitiligo, doença da pele que resulta na perda de pigmento.

As Gliadinas são Responsáveis por Muitos Efeitos Adversos à Saúde

Duas das substâncias encontradas no trigo responsáveis ​​por muitos dos problemas celulares associados que você enfrenta são gliadina e lectinas. A gliadina é a principal proteína imunotóxica encontrada no glúten e está entre as mais prejudiciais. Na doença celíaca, a gliadina desencadeia um processo imunológico geneticamente mediado que, por fim, causa uma reação inflamatória que resulta na destruição das vilosidades intestinais.

A gliadina promove ao pão produzido com trigo sua textura pastosa e é capaz de aumentar a produção da proteína intestinal zonulina, que por sua vez abre espaços nas junções normalmente estreitas entre as células intestinais (enterócitos).

Níveis elevados de anticorpos gliadina foram associados a distúrbios psiquiátricos, como esquizofrenia. Em um desses estudos, o exame de sangue de 950 esquizofrênicos foi comparado ao de 1.000 controles saudáveis. A razão de probabilidade de haver anticorpos anti-gliadina IgG foi 2,13 vezes maior nos esquizofrênicos.

A descoberta de anticorpos gliadina no sangue de pacientes com doença celíaca e esquizofrênicos implica que a gliadina não digerida pode atuar como antígenos, provocando resposta imune mediada por anticorpos.

A presença de gliadina no sangue também indica permeabilidade intestinal, e a gliadina demonstrou regular de modo positivo a zonulina no intestino, independente de a pessoa ter doença celíaca ou não.

A gliadina também pode fazer com que o sistema imunológico ataque o sistema nervoso, contribuindo com problemas neurológicos, como neuropatia, convulsões e alterações neurocomportamentais. Além da esquizofrenia, a gliadina também pode desempenhar função no autismo. Um estudo realizado em 2004 concluiu que crianças autistas tendem a ter anticorpos elevados contra a gliadina.

Muitas crianças com transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH) também não respondem bem à maioria dos grãos, especialmente ao trigo. Os sintomas psicológicos e comportamentais do TDAH são semelhantes o suficiente para os da doença celíaca e sensibilidade ao glúten, sendo que pesquisadores sugerem que a doença celíaca deve ser incluída na lista de verificação dos sintomas de TDAH.

Esta sugestão foi motivada por um estudo realizado em 2011, que concluiu que pessoas com TDAH que também tinham doença celíaca melhoraram significativamente após seguir uma dieta sem glúten por seis meses.

A psoríase também foi associada à gliadina. Em um estudo publicado no British Journal of Dermatology (Jornal Britânico de Dermatologia), participantes com psoríase que tinham anticorpos para gliadina melhoraram quando foram colocados em dieta sem glúten. A National Psoriasis Foundation (Fundação Nacional para Psoríase) também recomenda que pessoas com doença celíaca ou sensibilidade ao glúten adiram a uma dieta sem glúten para reduzir ou eliminar seus sintomas.

Como as Lectinas Afetam sua Saúde

Pró-inflamatório — O WGA estimula a síntese de mensageiros químicos pró-inflamatórios (citocinas) nas células intestinais e imunes, e demonstrou função causal na inflamação intestinal crônica.

Imunotoxicidade — O WGA induz a atrofia do timo em ratos e os anticorpos anti-WGA no sangue humano mostraram reagir de forma cruzada com outras proteínas, indicando que podem contribuir com a autoimunidade.

Neurotoxicidade — O WGA pode atravessar sua barreira hematoencefálica por meio de um processo chamado "endocitose de adsorção", que puxa outras substâncias com ele.

O WGA pode ligar-se à bainha de mielina e é capaz de inibir o fator de crescimento nervoso, que é importante para o crescimento, manutenção e sobrevivência de certos neurônios alvo.

Excitotoxicidade — Trigo, laticínios e soja contêm níveis excepcionalmente altos de ácido glutâmico e aspártico, o que os torna potencialmente excitotóxicos.

Excitotoxicidade é um processo patológico em que o ácido glutâmico e o aspártico causam ativação excessiva dos seus receptores de células nervosas, o que pode desencadear lesão nervosa e cerebral induzida por cálcio.

Estes dois aminoácidos podem contribuir para doenças neurodegenerativas, como esclerose múltipla, doença de Alzheimer, doença de Huntington e outras doenças do sistema nervoso, como epilepsia, ADD/ADHD e enxaquecas.

Citotoxicidade — Demonstrou-se que o WGA é citotóxico para linhas celulares normais e cancerígenas, capazes de induzir a interrupção do ciclo celular ou a morte celular programada (apoptose).

Interrupção endócrina — O WGA pode contribuir para o ganho de peso, resistência à insulina e resistência à leptina, bloqueando o receptor de leptina no hipotálamo.

Cardiotoxicidade — O WGA promove potente efeito disruptivo na molécula de adesão celular endotelial plaquetária-1, que desempenha função fundamental na regeneração tecidual e na remoção segura de neutrófilos dos vasos sanguíneos.

Efeitos adversos sobre a função gastrointestinal provocados pelo aumento da perda da membrana intestinal da borda cuticular intestinal, reduzindo a área de superfície e acelerando a perda e o encurtamento das vilosidades.

Também causa a degradação do citoesqueleto nas células intestinais, contribuindo para a morte celular e aumento da rotatividade, e diminui os níveis de proteínas de choque térmico nas células epiteliais do intestino, deixando-as mais vulneráveis a danos.

Como Tratar a Intolerância ao Glúten e a Doença Celíaca

O tratamento para doença celíaca e intolerância ao glúten é uma dieta sem glúten, o que significa abster-se de qualquer alimento que contenha glúten. Em agosto de 2013, a Food and Drug Administration (FDA) dos EUA emitiu uma norma para classificação sem glúten. De acordo com a regra, para que um alimento seja considerado "sem glúten", ele deve ser:

  • Naturalmente sem glúten. Grãos naturalmente sem glúten incluem arroz, milho, quinoa, sorgo, sementes de linho e amaranto.
  • Qualquer grão contendo glúten deve ter sido refinado de forma a remover o glúten. O produto final não pode conter mais de 20 partes por milhão (ppm) de glúten.

Um exame de sangue pode verificar se você realmente tem ou não doença celíaca. Se você tiver essa doença, você precisará ser extremamente atento, pois a exposição ao glúten pode deixá-lo (a) gravemente doente e ameaçar sua saúde e sua longevidade a longo prazo.

Se você tiver intolerância ao glúten, você não precisa ser tão rigoroso com sua dieta e, eventualmente, pode descobrir seu próprio nível de tolerância ao glúten.

Por exemplo, um pedaço de pão pode não causar nenhum desconforto, mas dois pedaços, ou consumir pão dois dias seguidos, pode. Normalmente, evitar o glúten por uma semana ou duas é suficiente para ver uma melhora significativa.

Considerando os muitos culpados potenciais em jogo, seja a hibridização do trigo, glúten, outras proteínas de trigo, FODMAPs ou contaminação com glifosato, não é surpreendente que o trigo e outros grãos causem tais problemas para muitas pessoas.

Na minha experiência, quase todos se beneficiam evitando grãos, mesmo grãos integrais germinados, quer você tenha intolerância ao glúten ou não, e isso porque os grãos são ricos em carboidratos líquidos e evitá-los ajudará a melhorar sua função mitocondrial.

O comprometimento da função mitocondrial pode exacerbar os problemas de saúde relacionados à resistência à insulina, como sobrepeso, hipertensão arterial, diabetes tipo 2 e problemas mais graves, como doenças cardíacas e câncer.

+ Recursos e Referências