O glifosato e a esteatose hepática

fígado

Resumo da matéria -

  • Indivíduos com uma forma mais severa de Esteatose Hepática Não-Alcoólica (DHGNA), chamada Esteato-Hepatite Não-Alcoólica, ou EHNA, apresentaram quantidades significativamente maiores de glifosato residual na urina
  • O fato de a exposição ao glifosato poder levar a formas mais graves de doença hepática é preocupante, uma vez que portadores da EHNA estão em maior risco de cirrose hepática, câncer de fígado e maior mortalidade, tanto por motivos relacionados à saúde do fígado quanto por motivos não relacionados
  • Uma série de estudos em animais, incluindo um estudo de 1979 que mostrou que o Glifosato poderia interferir na função mitocondrial no fígado de ratos, associou a presença do composto químico a danos hepáticos
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Por Dr. Mercola

O glifosato, ingrediente ativo do herbicida Roundup, vem ganhando as manchetes devido aos seus efeitos carcinogênicos, mas outra doença grave também tem sido associada a essa onipresente substância química: a Esteatose Hepática Não-Alcoólica (DHGNA), especialmente os casos mais avançados.

Quantidades assombrosas de glifosato foram utilizadas em todo o mundo nas últimas décadas. Desde 1974, por exemplo, mais de 1,6 milhões de toneladas de glifosato foram utilizadas apenas nos EUA, representando cerca de 19% do uso global.

Dois terços do volume total de glifosato aplicado nos EUA entre 1974 e 2014 foram aplicados nos últimos 10 anos – período durante o qual as taxas de DHGNA também aumentaram significativamente.

À medida que mais e mais glifosato foi sendo pulverizado em terras agrícolas, parques urbanos e quintais, entrando em nossa alimentação e abastecimento de água, as taxas de DHGNA também aumentaram, de uma prevalência de 15% em 2005 para 25% em 2010. Existe uma conexão? Cada vez mais, a resposta parece ser que sim.

Exposição ao Glifosato está ligada ao avanço de Doença Hepáticas em humanos

Pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade da Califórnia, em San Diego, analisaram amostras de urina de 93 pacientes diagnosticados com DHGNA.

Aqueles com uma forma mais severa da doença, chamada Esteato-Hepatite Não Alcoólica, ou EHNA, apresentaram quantidades significativamente maiores de glifosato residual na urina, uma associação que se manteve verdadeira independentemente de outros fatores na saúde do fígado, como índice de massa corporal, diabetes, idade ou raça.

O fato de que a exposição ao glifosato pode levar a formas mais graves de doença hepática é preocupante, uma vez que aqueles com EHNA apresentam em maiores riscos de cirrose hepática, câncer no fígado e maior mortalidade, tanto por motivos relacionados à saúde do fígado quanto motivos não relacionados.

Em um comunicado de imprensa pela UC de San Diego, o principal autor do estudo, Paul J. Mills, Ph.D., explicou: “Há diversos estudos, os quais citamos em nosso artigo, onde animais foram alimentados com o Roundup ou diretamente com glifosato, e todos eles apontam para a mesma conclusão: o desenvolvimento de doenças hepáticas. Então, naturalmente, eu pensei: Poderia a exposição a esse mesmo herbicida ser a causa do aumento da incidência de doenças hepáticas nos EUA?

De acordo com Mills, “os níveis crescentes [de glifosato] na urina das pessoas possui forte correlação com o consumo de culturas tratadas com Roundup em nossa dieta”, embora ele reconheça que estamos expostos regularmente a diversas substâncias químicas sintéticas, e o estudo mediu apenas uma. Ainda assim, não é a primeira vez que o glifosato foi associado a problemas com a saúde do fígado, incluindo DHGNA e EHNA.

Estudos em animais mostram que até mesmo pequenas exposições ao Roundup pode causar danos ao fígado

Diversos estudos em animais associam o glifosato a danos no fígado, incluindo um estudo datado de 1979, que mostrou que o produto químico poderia interferir na função mitocondrial no fígado de ratos. Sabe-se também que o glifosato pode desencadear a produção de espécies reativas de oxigênio (ERO), levando ao estresse oxidativo.

Conforme observado pelo Scientific Reports, “a elevação nos marcadores de estresse oxidativo foi detectada no fígado e rim de ratos após exposição subcrônica a herbicidas à base de glifosato na concentração permitida pela legislação dos Estados Unidos na água potável, de 700 µg / L”.

Pesquisadores do King's College London também mostraram que mesmo “doses muito baixas” de herbicidas à base de glifosato eram prejudiciais. O estudo envolveu exposições ao glifosato de 4 nanogramas por quilograma de peso corporal por dia, o que se encontra 75.000 e 437.500 vezes abaixo dos níveis permitidos pela UE e pelos EUA, respectivamente.

Após um período de dois anos, as ratas mostraram sinais de lesão hepática, especificamente DHGNA e progressão para EHNA. Os autores observaram que o glifosato pode causar efeitos tóxicos através de diferentes mecanismos, dependendo do nível de exposição, incluindo possivelmente a imitação de estrogênio e a interferência na função enzimática e mitocondrial.

De acordo com os pesquisadores, "O glifosato também é um antibiótico patenteado (Número da Patente: US 7771736), e pode inibir o crescimento de bactérias suscetíveis à supressão da via do chiquimato, podendo causar a disbiose do trato gastrointestinal". Eles também acrescentaram:

“Nossas descobertas podem ter implicações na saúde humana, uma vez que a DHGNA está prevista para ser a próxima grande epidemia global. Aproximadamente 20-30% da população nos Estados Unidos possuem excesso de gordura em seus fígados. A DHGNA está associada ao rápido aumento recente na incidência de diabetes, obesidade e síndrome metabólica.

No geral, reconhece-se que a DHGNA é causada principalmente pela ingestão calórica excessiva, mas também pelo consumo de alimentos processados, bem como estilos de vida sedentários.

No entanto, muitos sofrem de DHGNA mesmo sem pertencerem a nenhum fator de risco, de forma que outros fatores contributivos para a doença, como a exposição a poluentes ambientais fisiologicamente ativos por meio de alimentos contaminados, não podem ser excluídos”.

A deficiência de colina também está ligada ao surgimento da Esteatose Hepática

A DHGNA é a doença hepática crônica mais comum nos países desenvolvidos, caracterizada por um acúmulo excessivo de gordura no fígado que não está relacionado ao consumo de álcool. A DHGNA pode evoluir para EHNA, que involve, além do acúmulo de gordura, inflamação do fígado e danos às células hepáticas.

Indivíduos com EHNA podem desenvolver fibrose, ou formação de tecido cicatricial, no fígado, bem como cirrose hepática, que por sua vez está ligada a um risco aumentado de câncer no fígado (as taxas de câncer no fígado têm aumentado significativamente nas últimas duas décadas).

Em geral, a DHGNA não apresenta sintomas, embora possa causar fadiga, icterícia, inchaço nas pernas e abdômen, confusão mental entre outros. Nos estágios iniciais, a DHGNA pode ser revertida através de atenção cuidadosa à dieta e prática de exercícios físicos, e a ingestão de colina também pode desempenhar um papel importante.

A colina, um nutriente essencial, auxilia a função hepática normal e a saúde do fígado, ajudando a manter a integridade da membrana hepática e a controlar o metabolismo do colesterol, incluindo lipoproteínas de baixa densidade (LDL) e lipoproteínas de muito baixa densidade (VLDL), ajudando a remover gordura do fígado.

Ao aumentar a secreção de VLDL no fígado, necessária para o transporte da gordura com segurança, a colina ajuda a proteger a saúde do seu fígado. Estima-se que 90% da população dos EUA seja deficiente em colina.

Você pode aumentar sua ingestão consumindo mais alimentos ricos em colina, como gemas de ovos orgânicos, fígado bovino de gado terminado a pasto, salmão do Alasca pescado em meio selvagem e óleo de krill. A rúcula é também uma excelente fonte de colina.

Restringir a ingestão líquida de carboidratos também é essencial para a saúde do fígado

No caso da DHGNA, o glifosato pode ser um fator contributivo, mas a dieta é outro. Com a DHGNA, o fígado gorduroso ocorre na ausência de consumo significativo de álcool, sendo, em vez disso, conduzido pelo excesso de açúcar, razão pela qual até mesmo crianças pequenas podem apresentar esta condição.

O mais importante é eliminar da sua dieta toda a frutose processada e outros açúcares adicionados. A frutose afeta o fígado de maneira muito semelhante ao álcool. Ao contrário da glicose, que pode ser usada por praticamente todas as células do seu corpo, a frutose só pode ser metabolizada pelo fígado, uma vez que ele é o único órgão capaz de transportá-la.

Como toda a frutose é transportada para o fígado, se você consome quantidades elevadas, ela acaba sobrecarregando-o e danificando-o da mesma forma que o álcool e outras toxinas. A forma como o fígado metaboliza a frutose também é muito semelhante à do álcool, pois ambos servem como substratos para a conversão de carboidratos em gordura, o que promove resistência à insulina, dislipidemia (níveis anormais de gordura na corrente sanguínea) e fígado gorduroso.

A frutose também sofre a reação de Maillard com proteínas, levando à formação de radicais livres de superóxido que podem resultar em inflamação do fígado, assim como o acetaldeído (um metabólito intermediário do etanol). Reduzir os carboidratos a no máximo 50 gramas para cada 1.000 calorias e aumentar a ingestão de gorduras saudáveis é uma excelente forma de melhorar a saúde do seu fígado.

No vídeo abaixo, o Dr. David Unwin, um proponente das dietas low-carb no Reino Unido, discute as melhorias de saúde que seus pacientes apresentaram na função hepática (bem como diabetes tipo 2) ao seguirem uma dieta pobre em carboidratos.

(Vídeo disponível apenas em Inglês)

Veredito em julgamentos do Glifosato é favorável às vítimas, concedendo compensação por danos no valor de bilhões de dólares

Além da DHGNA, a ligação do glifosato com o câncer se torna cada vez mais evidente, e as três primeiras ações judiciais alegando que o produto químico é a causa do câncer dos autores dos processos foram decididas em favor das vítimas. Em agosto de 2018, um júri decidiu a favor do requerente Dewayne Johnson, que alegou que o Roundup foi a causa de um linfoma não-Hodgkin.

A Monsanto foi obrigada a pagar 289 milhões de dólares pelos danos causados a Johnson, embora esse valor tenha sido reduzido depois para $78 milhões.

Em um segundo caso, um juiz decidiu mais uma vez em favor do requerente, ordenando à Bayer que pagasse mais de US$ 80 milhões a Edwin Hardeman, que alegou que repetidas exposições ao Roundup, que ele utilizava para matar ervas daninhas em sua propriedade de 56 acres, foram responsáveis por seu diagnóstico de câncer.

O terceiro caso envolveu um casal, Alva e Alberta Pilliod, que afirmaram que ambos desenvolveram linfoma não-Hodgkin após uso regular do Roundup. O casal usava o herbicida desde os anos 70, tendo parado poucos anos atrás.

O júri ouviu depoimentos durante 17 dias, e deliberou por apenas dois dias antes de decidir a favor dos Pilliods e ordenar à Bayer que pagasse US$2 bilhões em indenizações punitivas e compensatórias.

Já há pelo menos 13.400 processos de pessoas alegando que a exposição ao herbicida Roundup causou-lhes problemas de saúde, incluindo câncer. Se a ciência continuar acusando uma ligação entre o glifosato e a DHGNA, é muito provável que outra rodada de processos judiciais possa cair sobre a Bayer devido ao legado tóxico dos seus produtos químicos.

A Bayer até foi pega elaborando uma lista de correspondências depois que a mídia francesa levantou acusações sobre o “projeto de mapeamento de partes interessadas” da Monsanto, em 2016. A Monsanto compilou listas de partes interessadas favoráveis e condenatórias, contendo informações pessoais, incluindo endereço e opiniões em relação a Monsanto, que pode ter violado princípios éticos e regulamentos legais.

Como evitar a exposição ao glifosato

Quanto glifosato um indivíduo ingere, em média, se ele consome uma dieta contendo alimentos não orgânicos, principalmente processados, todos os dias? É difícil saber ao certo por enquanto, mas as evidências indicando que doença hepáticas podem ocorrer mesmo com doses muito baixas, deveriam fazer com que órgãos públicos estivessem lutando para descobrir. O glifosato foi detectado em tudo, desde água potável até cereais Cheerios e fraldas descartáveis.

A melhor maneira de reduzir a sua exposição é escolher alimentos orgânicos ou biodinâmicos sempre que possível. Curiosamente, os autores do estudo apresentado planejam colocar os pacientes em uma dieta orgânica por vários meses, o que presumivelmente reduziria sua exposição ao glifosato e outros produtos químicos, para observar como isso afeta os biomarcadores da doença hepática.

Se você quer saber quanto glifosato contém em seu corpo, o Instituto de Pesquisa em Saúde (HRI) de Iowa desenvolveu um kit de teste de glifosato na urina, que permitirá determinar seu nível de exposição a esse produto químico.