O alvoroço da mídia sobre a dieta cetogênica e o suposto odor na virilha causado por ela

(Vídeo disponível apenas em Inglês)
mal cheiro na virilha

Resumo da matéria -

  • O mal cheiro na virilha supostamente causado pela dieta cetogênica é baseado em piadas de uma discussão do Reddit. Não há qualquer evidência que sugira que a dieta cetogênica possa causar odores vaginais
  • Açúcar e carboidratos líquidos são os principais causadores de infecções fúngicas, vaginite, infecções da bexiga e doenças semelhantes, e as mulheres que sofrem dessas condições e mudam para uma dieta pobre em carboidratos geralmente notam uma melhora significativa
  • As cetonas imitam as propriedades de prolongamento da vida útil do jejum, que incluem um melhor metabolismo da glicose, a redução de inflamações, a eliminação de células imunológicas defeituosas e a regulação positiva da autofagia e mitofagia em suas mitocôndrias
  • A cetoacidose diabética, que causa mau hálito, não tem nada a ver com a cetose nutricional alcançada através de uma dieta cetogênica
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Por Dr. Mercola

"Your Meat-Heavy Diet Might Be Giving You 'Keto Crotch", um artigo do site munchies.vice.com, afirma que "Médicos confirmaram que alterar sua dieta pode criar odores novos e interessantes... lá embaixo". "O odor vaginal causado pela dieta cetogênica pode ser um dos maiores motivos para consumir carboidratos até o momento", diz Emily Alford no site Jezebel.com.

"O odor vaginal é um efeito colateral muito fedorento da popular dieta cetogênica", declara o New York Post, logo antes de confundir cetoacidose diabética, que causa mau hálito, com a cetose nutricional, alcançada através de uma dieta cetogênica (os dois não têm absolutamente nada a ver um com o outro, como eu explico em minha entrevista com Dorian Greenow e no site ketogenic-diet-resource.com).

Várias outras mídias, tradicionais ou não, subitamente apareceram com manchetes similares, alertando as pessoas de que a dieta cetogênica causa corrimento vaginal mal cheiroso, que torna as mulheres socialmente exiladas, e que consumir alimentos ricos em açúcar, como sucos de fruta e grãos integrais é a forma ideal de sanar esses odores.

Por incrível que pareça, uma busca on-line pelo termo "keto crotch", que seria o nome dado a esse suposto mal cheiro em inglês, revela mais de 2.060.000 resultados. A pergunta é: onde está a prova que endossa esse absurdo?

A ascensão do tal "keto crotch"

Até onde eu pude investigar, o termo surgiu inicialmente em uma discussão do Reddit em 2014 e depois em 2016. Todas as discussões a respeito no site têm caráter anedótico.

Desde então, até 24 de fevereiro de 2019 — quando o site Delish.com publicou o artigo de Korin Miller, "'Keto Crotch' pode ser um efeito colateral surpreendente de uma dieta com baixo teor de carboidratos", republicado no mesmo dia no Yahoo Finance com mais ênfase, o termo era praticamente inexistente, segundo uma pesquisa que eu fiz numa dúzia de páginas de busca.

Miller, que parece ter sido o primeiro jornalista a usar o termo "keto crotch" é uma jornalista freelancer que publica em várias revistas femininas e de saúde.

Ela também é consultora SEO e fundadora da empresa KeepUP Marketing9, que ajuda sites a otimizarem seus resultados de busca. Além disso, ela também atua como editora chefe do StyleCaster Media Group, "uma mídia digital de ponta e plataforma tecnológica para moda, beleza e estilo de vida".

Com essas qualificações, seria razoável presumir que ela sabe como fazer um boato se tornar viral. O motivo para fazer isso, nesse caso, ainda é desconhecido. A história começou a se espalhar no dia seguinte. No dia 28 de fevereiro, havia artigos sobre o odor vaginal causado pela dieta cetogênica em "toda parte".

Ainda assim, nenhum estudo científico foi citado em nenhum artigo e nenhuma pesquisa na literatura médica relacionada não teve qualquer resultado. Na verdade, o artigo publicado por Miller no dia 24 não especifica qualquer fonte que ligue a cetose nutricional a um mal cheiro vaginal.

Quem são os especialistas que andam comentando o assunto?

Os artigos, no entanto, citam vários profissionais de saúde, entre eles a nutricionista Lisa DeFazio, cujo comentário apareceu em várias notícias em 48 horas, a ginecologista Dra. Lauren Streicher e a nutricionista Andrea Hardy.

DeFazio publicou um link para um estudo de 2009 no Journal of Nutrition, quando questionada por um seguidor do Twitter sobre a base de suas preocupações ao descobrir que a vaginose bacteriana era mais prevalente entre as mulheres que tinham a maior ingestão de gordura na dieta.

Os comentários de Streicher, por outro lado, foram muito mais neutros, observando que mudanças na dieta alteram temporariamente o pH vaginal em geral e que não há evidências médicas ligando a dieta cetogênica a infecções ou outras doenças vaginais causadoras de odores. O Huffington Post escreveu:

"Quando recebi a primeira ligação perguntando sobre o assunto, quis saber se eles estavam fazendo isso para escrever uma história", disse Lauren Streicher, diretora médica do Medicine Center for Sexual Medicine and Menopause e professora clínica de obstetrícia e ginecologia na Northwestern. A Feinberg School of Medicine, ao HuffPost com uma risada.

Streicher disse que, embora seja possível que a dieta tenha um impacto na saúde vaginal, não há qualquer evidência científica que prove a existência do mal cheiro na virilha como efeito colateral da dieta cetogênica.

O problema do estudo citado por DeFazio é que as mulheres também faziam uma alta ingestão de carboidratos, que são a principal causa de infecções fúngicas. De acordo com os autores do estudo:

"A ingestão energética excedia o valor diário para mulheres adultas". Além disso, a ingestão de energia, gordura e carboidratos das mulheres foi consideravelmente maior do que as relatadas no NHANES (1999-2000) para mulheres da faixa etária.

Em outras palavras, parece que essas mulheres consumiam uma dieta padrão para americanos, rica em gordura e carboidratos. Sendo assim, resultados atribuídos a uma dieta com essas características não podem ser ligados à dieta cetogênica.

Não é de se surpreender que DeFazio recomende o consumo de carboidratos para perda de peso, dizendo que "dietas com baixa ingestão de carboidratos não funcionam a longo prazo". DeFazio também recebe perguntas da mídia, dizendo estar "disponível para qualquer revista, jornal, rádio ou TV, acomodando as entrevistas tão rápido quanto possível, mesmo aquelas de última hora".

Ela também está a serviço da Taylor Talent Services, especializada em "ajudar marcas e produtores a encontrar a abordagem certa para seus produtos".

Os especialistas na dieta cetogênica nunca ouviram falar desse "efeito colateral"

Especialistas da área, como eu, nunca ouviram qualquer reclamação relacionada até o momento. No vídeo acima, o Dr. Ken Berry, autoproclamado "entusiasta da dieta cetogênica", compartilha seu ponto de vista.

Como apontado por Berry, os carboidratos são os maiores causadores de infecções fúngicas, vaginite, infecções da bexiga e males similares, de modo que mulheres que sofrem dessas condições e adotam uma dieta com baixa ingestão de carboidratos percebem melhoras imediatas. "Não há nada na dieta cetogênica que cause vaginite ou vaginose", ele diz. "Isso simplesmente não faz sentido".

Kristie Sullivan, Ph.D, que adotou a dieta cetogênica desde 2013 e passou anos ensinando outras pessoas a fazê-lo tem um ponto de vista similar:

"Em quase seis anos seguindo uma dieta rigorosa de baixo consumo de carboidratos e interagindo com centenas de milhares de pessoas através das redes sociais e dos meus grupos no Facebook (mais de 250.000 pessoas...), tenho participado de quase todas as discussões imagináveis sobre saúde pessoal e dieta cetogênica.

Nunca, sequer uma vez, a questão do odor vaginal surgiu nas conversas. Mal hálito ou mudanças no odor corporal não são preocupações incomuns, mas tendem a ocorrer na fase de adaptação, sem deixar quaisquer efeitos de longo prazo".

Outra especialista, Megan Ramos, CEO da Intensive Dietary Management em Toronto, Canadá, disse numa entrevista:

"Até o momento, tratamos mais de 10.000 pacientes. Aproximadamente 65% eram mulheres. Nenhuma dessas mulheres falou sobre isso comigo.

Na verdade, a dieta parece oferecer um efeito oposto: as mulheres que aderiram à dieta têm menos infecções fúngicas e da bexiga, e as pacientes diabéticas tiveram o açúcar no sangue normalizado e pararam de tomar inibidores de SGLT2 (uma droga que faz as pessoas eliminarem açúcar pela urina)."

De onde veio a história que liga odores vaginais à dieta cetogênica?

Considerando a total falta de evidências científicas de que cetose nutricional cause infecções vaginais, a origem desse boato desperta curiosidade. Afinal, algumas piadas no Reddit se espalharam como um incêndio na internet, com a adesão simultânea de vários meios de comunicação.

Há várias histórias praticamente idênticas em diferentes revistas que foram lançadas no mesmo dia.

Duas pessoas lançaram luz à questão. No vídeo acima, Berry explica como ele percebeu um padrão nas várias histórias publicadas em revistas femininas.

Todas elas tinham anúncios dos Vigilantes do Peso, cujo preço das ações caiu 80% desde julho de 2018, uma derrocada atribuída pelos mesmos à adoção massiva da dieta cetogênica.

As grandes empresas e o medo da dieta cetogênica

Embora as evidências que implicam Edelman e os Vigilantes do Peso na criação do mito do odor vaginal derivado da dieta cetogênica ainda sejam circunstanciais, o momento parece, no mínimo, conveniente. No mesmo dia em que o mito explodiu na internet (28 de fevereiro), a CNN reportou a falência dos Vigilantes do Peso, declarando:

"Mindy Grossman, CEO da empresa, atribuiu o problema à dieta cetogênica, um popular estilo de alimentação que exclui o pão e outros carboidratos". Durante uma ligação com analistas, ela disse que a dieta cetogênica era um meme cultural.

Vamos encarar a realidade: a mídia pertence à indústria, e aproveitando-se de influenciadores das redes sociais, é possível criar notícias falsas de modo que afirmações infundadas como esta se espalhem como fogo. Embora não haja evidências que apoiem essa história absurda, há uma quantidade inacreditável de publicações citando os benefícios da dieta cetogênica.

Por exemplo, as cetonas têm um impacto biológico semelhante ao do jejum, incluindo autofagia acelerada e mitofagia, melhora do metabolismo da glicose, redução da inflamação, eliminação de células imunológicas defeituosas e redução do IGF-1 (um dos fatores que regulam as vias de crescimento é um dos principais intervenientes no envelhecimento acelerado, regeneração celular/intracelular e rejuvenescimento).

Informações básicas sobre a dieta cetogênica

Eu acredito firmemente na adoção de uma dieta cetogênica cíclica, o que significa que, após alcançar a flexibilidade metabólica, consumir alimentos ricos em gorduras saudáveis, com proteínas moderadas e carboidratos não fibrosos pode beneficiar a maioria das pessoas. Essa dieta é muito eficiente para perda de peso, como já discutimos, além de aumentar o poder de cura e renovação do corpo.

Manter a ingestão líquida de carboidratos (carboidratos totais menos fibra) em 50 gramas ou menos permite que você entre em cetose nutricional (o estado metabólico associado a uma produção aumentada de cetonas no fígado, que é o reflexo biológico da capacidade de queimar gordura). Porém, cada pessoa reage de uma forma diferente aos alimentos, de modo que os resultados podem variar.

Algumas pessoas podem entrar em estado de total queima de gordura com cetose em um nível de carboidratos não-fibrosos superior a 50 gramas, às vezes até 70 ou 80 gramas. No entanto, se você for resistente à insulina ou tiver diabetes tipo 2, talvez seja necessário limitar os carboidratos líquidos a 20 ou 30 gramas por dia.

Para encontrar o valor de carboidratos indicado para o seu caso, é importante observar não apenas a glicose, mas também as cetonas. Um dos medidores mais baratos e precisos no mercado atualmente é o Keto Mojo. Ele oferece um parâmetro objetivo que diz se seu corpo está ou não em cetose, em vez de apenas contar as gramas de carboidratos que você consome.

Usar um instrumento do tipo para acompanhar a ingestão de nutrientes torna as pessoas mais capazes de entender as metas e vantagens da dieta cetogênica e da importância de suas escolhas alimentares. Já existem vários produtos do tipo disponíveis, mas a minha primeira escolha é o Cronometer.com/Mercola.

Essa é a minha versão revisada, já pronta para acompanhar os níveis de macronutrientes nos quais se baseia a cetose nutricional. Uma vez que você tenha confirmado que está em cetose, comece o ciclo descrito acima, no qual você adiciona carboidratos líquidos e proteínas uma ou duas vezes na semana, preferencialmente nos dias em que você faz treinos de força na academia.

O jejum intermitente também funciona muito bem em conjunto com a dieta cetogênica, acelerando e otimizando os resultados. Você pode descobrir mais sobre os benefícios da dieta cetogênica nos meus livros "Fat for Fuel" e "Ketofast."