Por que o café afeta o metabolismo?

Café

Resumo da matéria -

  • Pesquisadores descobriram que a cafeína contida numa xícara padrão de café estimula a atividade da gordura marrom, queimando mais energia e potencialmente melhorando a sensibilidade à insulina. Essas atividades ajudar a controlar melhor o peso
  • Quem bebe café todo dia também apresenta maior metabolismo de ácidos graxos e da regulação do sistema endocanabinóide, que regula a cognição, a imunidade, o sono e o apetite, tendo o efeito oposto no organismo da ingestão de cannabis.
  • Seu corpo tem células de gordura branca e de gordura marrom; as células brancas podem ser programadas para células marrons quando a programação não é naturalmente suprimida por uma proteína em especial. A conversão de gordura branca em marrom é conhecida como gordura "bege"
  • A localização da gordura é importante, uma vez que a gordura subcutânea logo abaixo da pele não é tão perigosa quanto a gordura visceral encontrada na região abdominal, em volta dos órgãos.

Por Dr. Mercola

Muitas pessoas tem problemas de obesidade e excesso de peso. Embora algumas empresas, como a Coca-Cola, dizem que é possível compensar uma alimentação ruim com exercício, uma pesquisa concluiu que é uma combinação da alimentação saudável com os exercícios que oferece o maior benefício.

Em meados de 2015, o New York Times relatou as atividades da Global Energy Balance Network, uma organização sem fins lucrativos financiada pela Coca-Cola para promover o argumento de que o exercício é mais importante que a alimentação. A organização se desfez no final daquele mesmo ano.

A perda e o controle do peso movimentam US$ 66 bilhões por ano, de acordo com um relatório do final de 2017 feito pela empresa de pesquisa de mercado Marketdata, LLC. Em seu comunicado de imprensa, a empresa informa que o número de pessoas em dieta havia caído 10% desde 2015. Alguns dos produtos usados na indústria do emagrecimento incluem comprimidos, shakes e suplementos, clínicas médicas para a perda de peso, alimentos congelados e serviços on-line.

Existem vários fatores que contribuem para a capacidade de se perder peso, incluindo sono de qualidade em quantidade suficiente todas as noites, um microbioma intestinal saudável e a opção de comer mais alimentos integrais e menos alimentos processados. Um estudo recente publicado na Scientific Reports mostrou que o café é capaz de afetar o metabolismo e mobilizar a gordura marrom metabolicamente.

Estudo mostra que o café estimula a gordura marrom

O tecido adiposo marrom (TAM) pode gerar calor (termogênese) e queimar glicose e gordura por meio de uma reação mitocondrial mediada pela proteína desacopladora 1 (UCP1) nas mitocôndrias. O equilíbrio da energia impede o desenvolvimento da obesidade e, embora a atividade física possa dissipar alguma energia, o corpo também usa um sistema de termogênese, isto é, a produção de calor através da queima de energia.

O aumento da UCP1 pode reduzir o potencial para obesidade e melhorar a sensibilidade à insulina, pois é um dos sistemas de termogênese da gordura marrom. No estudo da Scientific Reports, os pesquisadores analisaram o efeito da cafeína no tecido adiposo marrom, tanto no tubo de ensaio como nos seres humanos.

Eles escreveram que estudos anteriores demonstraram a ativação do tecido adiposo marrom através de nutrientes ou exposição ao frio. A cafeína mostrou aumentar a UCP1 em ratos obesos, mas a extensão de seus efeitos diretos no tecido adiposo marrom em humanos era desconhecida. Primeiro, os pesquisadores usaram células de camundongos e células-tronco da medula óssea humana, cultivadas em um tubo de ensaio e, mais tarde, introduziram a cafeína.

Sua análise foi realizada através de vários testes, incluindo coloração mitocondrial, microscopia eletrônica de transmissão e análise de expressão gênica. Em seguida, nove voluntários humanos saudáveis com um índice de massa corporal médio de 23, dentro da faixa normal, foram convidados a participar. Eles tomaram uma bebida com cafeína ou água e depois permaneceram sentados por 30 minutos.

Os pesquisadores descobriram que o tratamento das culturas celulares com cafeína aumentou a expressão da UCP1. Eles também analisaram e compararam as imagens térmicas feitas 30 minutos após a ingestão das bebidas, comparando-as com aquelas feitas anteriormente.

As imagens mostraram um aumento da temperatura do tecido adiposo marrom e na área subclavicular em adultos após a ingestão do café. Isso se refletiu num aumento da produção de calor no tecido adiposo marrom não demonstrado após a ingestão de água.

Uma xícara padrão de café pode ajudar no controle do peso

Os pesquisadores da Scientific Reports afirmam que este é o primeiro estudo a demonstrar a estimulação da UCP1 in vitro pela cafeína e que pode ser comparável à ingestão de cafeína por humanos através de uma xícara de café de tamanho padrão.

Para os pesquisadores, isso sugere que a cafeína contida numa xícara padrão de café pode aumentar a taxa metabólica e melhorar a função do tecido adiposo marrom. Em teoria, essa atividade teria o potencial de contribuir para a perda de peso. Eles escreveram:

"Em conclusão, esses resultados fornecem novas evidências complementares, in vitro e in vivo, de que a cafeína (ou o café) pode estimular a função do tecido adiposo marrom em dosagens compatíveis com o uso humano".

O café diário afeta o metabolismo de várias maneiras

Frequentemente se relata novas descobertas sobre o café e seu impacto à saúde. Alguns afirmam que a cafeína ajuda a viver mais tempo, enquanto outros associam a cafeína ao aumento do risco potencial ao perigo. Chega a ser difícil saber em que acreditar.

Em um estudo publicado pela Northwestern Medicine, cientistas descobriram que o café causou uma mudança considerável em mais metabólitos no corpo do que se conhecia. Depois de comer ou beber, seu corpo produz metabólitos ou substâncias químicas. Um maior número de metabólitos afetados pode explicar, em parte, a quantidade de efeitos que o café exerce sobre o organismo.

Os pesquisadores reuniram 47 pessoas que têm o hábito de tomar café e pediram que parassem de tomar a bebida por um mês. No mês seguinte, os participantes tomaram quatro xícaras de café por dia e, no último mês, tomaram oito por dia. Durante o estudo, os pesquisadores coletaram amostras de sangue, avaliando a quantidade e o tipo de metabólitos.

Eles descobriram que os níveis de 115 metabólitos foram alterados pelo consumo de café, 82 dos quais eram conhecidos por afetar 33 vias biológicas. Eles também descobriram três novas relações com o café, incluindo metabólitos de esteróides, o metabolismo dos ácidos graxos e o efeito sobre o sistema endocanabinóide.

Seu corpo normalmente tem receptores canabinóides no sistema neurológico. Os pesquisadores descobriram que os neurotransmissores relacionados a esse sistema sofreram uma redução após a ingestão de quatro a oito xícaras de café por dia. O efeito é oposto ao que se esperaria da ingestão de cannabis.

Os pesquisadores destacam que o sistema endocanabinóide do nosso corpo regula as funções de cognição, imunidade, sono, apetite e energia, para citar apenas alguns. Além disso, eles encontraram metabólitos relacionados ao sistema androsteróide, sugerindo aos pesquisadores que o café pode ajudar a eliminar os esteróides do corpo.

Marrom, bege ou branca?

Três tipos diferentes de gordura desempenham funções distintas em seu corpo. Os pesquisadores do estudo em destaque estavam interessados no efeito que a cafeína teria na ativação do tecido adiposo marrom e, portanto, no aumento da termogênese e do metabolismo energético. Symonds comentou:

"A gordura marrom funciona de maneira diferente de outras gorduras no corpo e produz calor através da queima de açúcar e gordura, muitas vezes em resposta ao frio. Aumentar a sua atividade melhora o controle do açúcar no sangue, assim como os níveis de lípidos no sangue, enquanto a queima das calorias extras ajuda na perda de peso. No entanto, até agora, ninguém encontrou uma maneira aceitável de estimular sua atividade em seres humanos.

Este é o primeiro estudo em seres humanos que comprova que algo como uma xícara de café pode ter um efeito direto sobre as funções da nossa gordura marrom. As possíveis implicações dos nossos resultados são enormes, já que a obesidade é uma grande preocupação de saúde para a sociedade e também porque temos uma crescente epidemia de diabetes, e a gordura marrom poderia ser parte da solução contra esses problemas."

O tipo mais comum de célula de gordura são os adipócitos brancos, onde o excesso de energia é armazenado, aumentando o risco de obesidade. Sobrecarregar essas células leva a condições relacionadas, como Diabetes tipo 2 e doença cardiovascular. Do outro lado do espectro estão os adipócitos marrons, que são termogenicamente ativos e mais prevalentes em crianças do que adultos.

Os pesquisadores descobriram que as células de gordura branca podem ser programadas para se tornarem marrons, mas essa programação é suprimida pela proteína FLCN. A função de suprimir a programação da gordura marrom se dá em cooperação com outra via, que se encontra ativa durante os processos celulares, incluindo formação de tumores, resistência à insulina e crescimento de células adiposas.

Essa via específica, chamada mTOR, é ativada por aminoácidos e insulina, bem como fatores de crescimento, que por sua vez ajudam a suprimir a programação da gordura marrom. A conversão de gordura branca em células do tecido adiposo marrom é conhecida como células adiposas “bege”.

O sistema nervoso simpático é capaz de fazer isso em pequena escala, mas como as células de gordura branca estão relacionadas a outros sistemas de órgãos, isso não é possível em grande escala no organismo. Os cientistas estão experimentando a conversão da gordura branca fora do corpo em gordura bege para reintroduzi-la com a finalidade de ajudar a combater a obesidade.

A localização da gordura faz toda a diferença

O local onde a gordura está localizada no seu corpo faz uma enorme diferença para a saúde. A gordura branca desempenha duas funções importantes: armazenar o excesso de calorias e liberar hormônios que controlam o metabolismo. A gordura pode ser armazenada diretamente sob a pele, a chamada gordura subcutânea, ou dentro do abdômen em volta de seus órgãos, a chamada gordura visceral.

A gordura subcutânea costuma ser encontrada nas coxas e nádegas, e geralmente não causa tantos problemas quanto a visceral. De acordo com a Harvard Health, 90% da gordura corporal na maioria das pessoas é subcutânea, o que pode ser descrito como a gordura que você pode beliscar. Ela se acumula na parte inferior do corpo, criando uma forma de pêra.

Os 10% restantes são intra-abdominais ou visceral, abaixo da parede abdominal e ao redor de seus órgãos. Esse tipo de gordura está fortemente associada à síndrome metabólica e resistência à insulina. Em um estudo da Universidade de Illinois, os pesquisadores descobriram que uma molécula reguladora produzia uma resposta corporal que levava a maiores quantidades de gordura visceral com o aumento da ingestão calórica.

Ative suas reservas de gordura marrom

Uma maneira de estimular a via mTOR é através do consumo excessivo de proteínas. Esse estímulo ajuda a suprimir a programação da gordura branca em tecido adiposo marrom. Para descobrir como determinar a ingestão ideal de proteínas para você, veja meu artigo: "A precisão importa quando o assunto é proteína".

Existem outras maneiras de ativar sua gordura marrom para queimar mais energia e converter parte da gordura branca em bege, aumentando também a termogênese, sem medicamentos nem cirurgia. Aqui estão cinco estratégias extras que você pode tentar:

Exercício — Em um estudo do Wexner Medical Center da Universidade do Ohio, os pesquisadores descobriram que uma das razões pelas quais o exercício estimula o metabolismo é aumentando os níveis de uma molécula de lipocina, que já foi associado a baixas temperatudas no passado.

Os pesquisadores descobriram que a função da gordura marrom durante o exercício era dizer ao músculo para usar mais ácidos graxos como combustível. Eles confirmaram seus resultados em um estudo com animais, durante o qual encontraram lipocinas após o exercício dos camundongos, mas uma vez que o tecido adiposo marrom era removida dos camundongos, não havia mais evidência de aumento induzido pelo exercício.

Frio — Vários estudos demonstraram que a exposição ao frio aumenta a queima de glicose na gordura marrom e regula as proteínas UCP1. Também aumenta a ativação do tecido adiposo marrom, reduz a gordura e altera as mitocôndrias no músculo esquelético e na gordura marrom. A exposição diária aumenta o volume de tecido adiposo marrom e a capacidade oxidativa.

Sono — Um método estudado para expor os participantes a um ambiente fresco consistia em reduzir a temperatura ambiente durante o sono. Os pesquisadores estudaram cinco homens durante quatro meses. Os participantes faziam suas atividades regulares durante o dia e depois retornavam aos seus quartos todas as noites.

A temperatura no quarto foi ajustada para 24ºC durante o primeiro mês, 19ºC nos dois meses seguintes, e 27ºC no último mês. Após um mês de exposição a temperaturas amenas, os pesquisadores mediram um aumento de 42% no volume do tecido adiposo marrom e 10% na atividade metabólica dos participantes.

+ Recursos e Referências