Humanos precisarão de úteros mecânicos e reprodução assistida

Fatos verificados
Crise de fertilidade

Resumo da matéria -

  • Certos aspectos do mundo moderno, como substâncias diruptoras hormonais, não apenas ameaçam a contagem de espermatozoides, mas também alteram o desenvolvimento reprodutivo em homens e mulheres
  • Caso a contagem de esperma continue sua trajetória de queda, uma parte significativa da população global pode não ser capaz de se reproduzir sem assistência tecnológica até 2050
  • Substâncias químicas no ambiente que interferem nos hormônios, conhecidos como diruptores hormonais, são grande parte do problema; ftalatos, bisfenol A, atrazina e retardantes de fogo, estão entre os mais problemáticos
  • Cientistas já estão trabalhando na reprodução externa ao útero humano e, pela primeira vez, um embrião de camundongo cresceu em um útero mecânico por um período igual ao de um embrião humano em 5 semanas
  • Os pesquisadores esperam conseguir que um útero mecânico desenvolva um embrião por cinco semanas, o que levanta questões éticas sérias

Por Dr. Mercola

De 1973 a 2011, os homens experimentaram uma queda de 50% a 60% na contagem de esperma, de acordo com um estudo de 2017 feito por Shanna Swan, Ph.D, epidemiologista ambiental e reprodutiva da Icahn School of Medicine no Mount Sinai em Nova York, e seus colegas.

Por mais de duas décadas, Swan tem avisado sobre a crise da fertilidade, que costuma ficar na conta do estilo de vida moderno ou da escolha de ter filhos mais tarde na vida, mas que também tem muito a ver com substâncias químicas presentes no ambiente.

"Não estou dizendo que não haja outros fatores envolvidos. O que estou dizendo é que as substâncias químicas têm o maior peso no problema", disse ela ao The Guardian.

Seu livro, “Count Down: How Our Modern World Is Threatening Sperm Counts, Altering Male and Female Reproductive Development, and Imperiling the Future of the Human Race", entra em detalhes sobre a forma como o mundo moderno não está apenas ameaçando a contagem de espermatozoides, mas também alterando o desenvolvimento reprodutivo em homens e mulheres e, ao fazer isso, "coloca em perigo o futuro da raça humana".

Mundo infértil: Até 2045, as contagens médias de espermatozoides poderão chegar a zero

De acordo com Swan, se a curva descendente da contagem de espermatozoide continuar caindo no ritmo dos estudos feitos em 2017, em 2045 chegará a zero. "Extrapolar dessa forma é especulativo, mas não há evidências que dissuadam dessa conclusão. Isso significa que a maioria dos casais pode precisar de reprodução assistida", ela diz.

Um motivo pelo qual Swan acredita que as substâncias químicas presentes no ambiente são culpadas é que sua pesquisa mostra que mulheres jovens têm sofrido mais queda na fertilidade do que homens mais velhos. Isso sugere que não se trata da idade ou da decisão de começar uma família mais tarde. As taxas de aborto espontâneo estão em ascensão, aumentando em uma porcentagem relativa de 2% ao ano de 1990 até 2011.

O livro "Count Down" traz aos holofotes algumas descobertas pouco divulgadas, como o fato de que uma grande parcela da população global pode não conseguir se reproduzir sem auxílio tecnológico em 2050. O livro também explica que os homens de hoje só têm metade dos espermatozoides que seus avôs tinham.

"Em algumas partes do mundo, mulheres de vinte e poucos anos são menos férteis do que suas avós aos 35", escreve Swam em seu livro. "O estado atual da crise reprodutiva não pode continuar por muito tempo, pois isso ameaçaria a sobrevivência humana... É uma crise existencial global".

As substâncias químicas no ambiente vêm acabando com nossos hormônios

As substâncias químicas no ambiente que interferem nos hormônios, também conhecidas como diruptores hormonais, são o cerne do problema. As piores substâncias, diz Swan ao Guardian, são “aquelas que podem interferir ou imitar os hormônios sexuais do corpo, como a testosterona e o estrogênio, porque são eles que possibilitam a reprodução. Elas fazem o corpo acreditar que já há hormônios suficientes no corpo, o que leva o corpo a não produzir mais".

A exposição química durante a gravidez pode afetar a masculinização e a fertilidade de homens a longo prazo. Na natureza, peixes, sapos e répteis também nascem cada vez mais tanto com ovários como testículos.

Uma pesquisa publicada na PLOS Genetics descobriu que ratos machos expostos a etinil estradiol, um hormônio sexual sintético encontrado em contraceptivos, causa problemas de desenvolvimento do trato reprodutivo, baixando a contagem de esperma (homens podem ser expostos a anticoncepcionais através da água e outras fontes).

Tais substâncias são onipresentes, sendo encontradas em tudo, desde nos alimentos, água, produtos para o lar e cuidados pessoais, materiais de limpeza, utensílios e plásticos.

Grande parte do dano ocorre no início da gravidez, em intervalos importantes de desenvolvimento nas quais o feto está se formando e as células estão se dividindo com rapidez. A exposição contínua e acumulada durante a vida piora as coisas, passando os danos para as próximas gerações.

"O feto, no útero", explica Swan, "está desenvolvendo os óvulos utilizados para ter seus próprios bebês. Essas substâncias também podem chegar até as células germinativas”. O estudo da PLOS Genetics também demonstrou efeitos geracionais dos diruptores hormonais, com efeitos piorando a cada geração subsequente até que, na terceira geração, alguns dos animais não pudessem produzir nenhum esperma.

O efeito 1%

Parece haver uma espécie de efeito sinérgico acontecendo, já que, segundo o livro, a contagem de esperma, a testosterona e a fertilidade estão diminuindo enquanto as ocorrências de câncer de testículo e abortos espontâneos estão aumentando em cerca de 1% ao ano. A disfunção erétil e o uso de barrigas de aluguel aumentam 1% ao ano, enquanto a fertilidade global caiu cerca de 1% ao ano entre 1960 a 2018.

Todas essas mudanças reprodutivas ocorrendo em uníssono não é coincidência, segundo Swam. "É tudo sincronizado demais para uma coincidência ser possível", ela escreveu na Scientific American. Bebês do sexo masculino podem ser ainda mais vulneráveis às exposições a toxinas que ocorrem durante o intervalo de programação reprodutiva no início da gravidez.

Os ftalatos, substâncias químicas usadas para tornar o plástico macio, são conhecidos por diminuir a testosterona, e a exposição das mulheres aos ftalatos durante a gravidez está ligada à distância anogenital (DAG ou distância do ânus à base do pênis) dos bebês do sexo masculino com maior exposição associada ao encurtamento da DAG. E a DAG mais curta está associada a um pênis menor e a uma menor qualidade do sêmen, de modo que Swan acredita que a DAG ao nascer é preditivo da função reprodutiva do adulto.

A exposição a substâncias químicas que perturbam os hormônios no útero também aumenta o risco de que bebês do sexo masculino nasçam com testículos que não desceram ou com um pênis malformado, o que também aumenta o risco de baixa contagem de esperma e câncer testicular.

Com a queda na contagem de espermatozoides, as mudanças no desenvolvimento sexual representam uma ameaça à sobrevivência humana, de acordo com Swan, que também observa que os seres humanos já atendem a três dos cinco critérios que ameaçam as espécies.

Os ftalatos estão entre os piores diruptores hormonais

Swan cita os ftalatos, o bisfenol A (BPA) e retardadores de chama como as piores substâncias químicas para a saúde reprodutiva. Sobre os ftalados, ela disse ao Guardian:

“Eles estão em todos nós e nossa primeira exposição vem dos alimentos, pois usamos plástico macio na fabricação, processamento e embalagem de alimentos. Eles baixam a testosterona e, portanto, influenciam mais os homens, por exemplo, diminuindo a contagem de esperma, e talvez sejam ruins para as mulheres por conta da diminuição da libido, aumento da chance de puberdade precoce, falência ovariana precoce, aborto espontâneo e parto prematuro.”

Estima-se que 8,4 milhões de toneladas de plastificantes, incluindo ftalatos, sejam usados em todo o mundo a cada ano, com a produção de ftalatos chegando a cerca de 4,9 milhões de toneladas todos os anos. Testes do Instituto Norueguês de Saúde Pública entre 2016 e 2017 revelam que 90% dos participantes apresentavam oito plastificantes distintos na urina.

A exposição a ftalatos pode afetar o desenvolvimento do cérebro, aumentando o risco de distúrbios de atenção, aprendizado e comportamento. Em um exemplo, crianças nascidas de mulheres que estavam no quintil mais alto dos níveis de ftalato urinário (em especial, metabólitos DEHP) durante o segundo trimestre da gravidez tinham quase três vezes mais probabilidade de serem diagnosticadas com TDAH em comparação com crianças nascidas de mães com níveis no quintil mais baixo.

A exposição pré-natal a ftalatos, em especial metabólitos de DBP e DEHP, também tem sido associada a comportamentos problemáticos, como um aumento da probabilidade de comportamentos delinquentes e agressivos, bem como reduções no raciocínio perceptivo da criança, QI reduzido, ansiedade e memória mais fraca.

O uso global de máscaras faciais pode acelerar o problema. Várias pesquisas demonstram que os microplásticos presentes nas máscaras, que contêm ftalatos, acabam sendo descartados no ambiente e são inalados pelos usuários.

BPA, atrazina e retardantes de chama também são problemáticos

O BPA é outra substância diruptora hormonal, que é usada para endurecer plásticos, revestir latas de metal e fazer recibos. Essa substância tóxico altera o momento da puberdade, reduz a fertilidade, aumenta a gordura corporal e afeta os sistemas nervoso e imunológico.

“Ela imita o estrogênio e, portanto, é bastante ruim da perspectiva feminina, aumentando os riscos de problemas de fertilidade”, disse Swan ao Guardian, “mas também pode afetar os homens. Homens expostos ao BPA no trabalho exibiram uma diminuição da qualidade do esperma, redução da libido e maiores taxas de disfunção erétil.”

O pesticina atrazina também está entre os culpados. Uma pesquisa de Tyrone Hayes, PhD e biólogo da Universidade da Califórnia, Berkeley, tem uma hipótese de que a atrazina se transforma em uma enzima (aromatase) que faz com que a testosterona seja convertida em estrogênio. Isso quer dizer que homens expostos param de produzir esperma e começam a produzir estrogênio.

Os retardadores de chama são toxinas onipresentes e associadas de modo notório a efeitos de desregulação hormonal com graves repercussões para a fertilidade, saúde reprodutiva e desenvolvimento do cérebro.

Animais são criados em úteros mecânicos

Os cientistas já estão trabalhando em uma forma de criar vida fora do útero humano e, pela primeira vez, um embrião de rato cresceu em um útero mecânico por cerca de metade de um período de gestação típico, um período igual ao de um embrião humano em 5 semanas.

O cultivo de embriões de camundongos “fora do útero”, disseram os pesquisadores, é uma ferramenta valiosa para investigar o desenvolvimento embrionário em detalhes, mas apresenta sérias questões éticas, incluindo: será que os humanos serão os próximos?

A resposta é sim, como já disse o pesquisador-chefe Jacob Hanna, biólogo do desenvolvimento do Weizmann Institute of Science, ao MIT Technology Review: “Isso prepara o terreno para outras espécies. Espero que permita aos cientistas criar embriões humanos até a 5ª semana.”

Para aqueles interessados em proteger sua própria fertilidade e das gerações futuras tanto quanto possível, evitar substâncias que desregulam os hormônios é essencial. Para isso, Swan recomenda algumas soluções simples como consumir alimentos não processados e prepará-los você mesmo, pois isso reduz sua exposição a embalagens plásticas de alimentos. Ela também aconselha:

"Ao cozinhar, não use teflon ou qualquer material revestido. Não coloque plástico no micro-ondas. No caso de produtos de higiene pessoal e domésticos, use um mínimo de produtos simples e tente evitar aqueles que sejam perfumados; os ftalatos são adicionados para reter os aromas.”